sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Simplicidade voluntária

Na civilização do excesso, o que não faltam são informações, opções ― e, conseqüentemente, angústia. Na sociedade moderna, informatizada, de consumo, sucesso material e pessoal, as pressões para saber mais, ver mais, ter mais parecem soterrar, dando a idéia de que somos incapazes de atender adequadamente a todas as demandas.

A pergunta que cada vez mais gente se faz é: precisa ser tão complicado?

Não, não precisa, respondem os adeptos de uma filosofia que defende uma vida mais simples. O movimento chamado Simplicidade Voluntária, que surgiu nos Estados Unidos, no início dos anos 1980, vem ganhando espaço nos últimos anos e conquistando novos seguidores em todo o mundo. No Brasil, essa proposta é representada pelo Instituto Brasil Simples, criado em Porto Alegre pelo ex-bancário Jorge Mello, no final do ano passado.

Mello, 46 anos, durante 18 trabalhou como alto funcionário de um banco, na área de informática. Morava em uma cobertura, tinha um carro e duas motos. Hoje, mora em um quarto de 14 metros quadrados e divide a casa com o irmão, a cunhada e dois sobrinhos e ganha a metade do que ganhava no banco, trabalhando agora como terapeuta corporal. Mas ele garante que é muito mais feliz assim, fazendo apenas o que gosta e vivendo de forma mais simples.

Viver com simplicidade não é uma idéia nova. Na Grécia antiga, Platão e Aristóteles já falavam de uma vida sem excesso ou falta, mas com o suficiente para atender às necessidades, um meio-termo entre a riqueza e a pobreza.

― Nova e urgente é a necessidade de atuarmos nas circunstâncias materiais e ecológicas em que o planeta e seus habitantes se encontram atualmente ― explica Jorge Mello.

Ele destaca também a influência do livro “Walden ou A Vida nos Bosques”, escrito no final do século 19, pelo americano Henry Thoreau (defensor do conceito de desobediência civil) para a Simplicidade Voluntária:

― Thoreau abriu mão de uma vida confortável e foi viver em uma casa que ele mesmo construiu, na beira de um lago. Baseado nesta experiência, ele publica esse livro criticando o materialismo da sociedade americana e pregando a necessidade de uma vida mais simples e próxima da natureza ― explica Mello.

Na boa tradição americana de simplificar a complexidade a um ponto de manejo pragmático, as ponderações de Thoreau encontram eco em outro americano considerado fundamental para a assim chamada 'filosofia da simplicidade'. Duane Elgin publicou ainda em 1981 o livro “Simplicidade Voluntária”, em que aponta caminhos para quem procura 'uma vida em equilíbrio' e que não se resumem ao clichê da guinada radical ou da renúncia absoluta a um padrão em favor de outro, monástico.

― Simplificar a vida não significa abrir mão de tudo, mas do que incomoda, do que prende, do que restringe os nossos movimentos e a nossa liberdade. Isso não significa fazer voto de pobreza, mas eliminar o excesso que atrapalha, que angustia, que nos coloca em tensão permanente ― diz Mello.

Professora de Psicologia Social e dos Grupos da PUCRS, Maria Lúcia Andreoli de Moraes diz que não conhece as propostas do movimento Simplicidade Voluntária, mas lembra que desde os anos 70 já se questionam os aspectos artificiais da cultura ocidental, como a supremacia do ter sobre o ser. Ela acredita ― e nisso termina por concordar com um dos postulados do Simplicidade Voluntária ― que o atual momento pede uma reflexão sobre o binômio consumo-necessidade.

― Não precisamos dormir em cama de pedra ― alerta a professora ― mas sim desenvolver um senso crítico na hora de adquirir novos produtos. Shopping-centers são palácios do consumo, oferecem produtos que não são necessários, são luxos.

O que leva à interessante questão: há possibilidades de crescimento de um movimento que prega a simplicidade em um país como o Brasil?

O professor Hartmut Gunther, do Instituto de Psicologia da Universidade Nacional de Brasília, não acredita que o movimento da Simplicidade Voluntária se espalhe no Brasil, onde muitas pessoas não têm sequer o mínimo para sobreviver:

― A cultura brasileira valoriza o quanto se tem, as pessoas esbanjam diante dos outros, desperdiçam comida, desperdiçam energia. Não acredito que um movimento que pregue que você pode viver com menos dê certo aqui.

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 Todos querem ser simples


 
A busca por uma vida simples não é uma invenção contemporânea, como demonstra o ensaísta americano Duane Elgin no livro “Simplicidade Voluntária”, nova é a urgência de uma abordagem pragmática do conceito.


Visão Oriental



As tradições espiritualistas orientais, como o budismo, o hinduísmo e o taoísmo, incentivam a moderação material e a abundância espiritual. O autocontrole e a vida simples são bastante valorizados, assim como a prática da caridade e da generosidade, sem que haja apego à própria riqueza ou às posses.



Visão Cristã

Jesus Cristo já pregava a simplicidade compassiva. Através de suas palavras e seu exemplo, dizia que devemos participar amorosamente da vida. A Bíblia também enfatiza a importância do equilíbrio entre os aspectos materiais e espirituais da vida.



Visão Grega Antiga

Platão e Aristóteles reconheceram a importância do 'meio-termo de ouro', caracterizado pelo suficiente para atender às necessidades. Nesta visão, o mundo material não é algo fundamental em si, mas um instrumento para servir para nosso aprendizado sobre o mundo mais amplo do pensamento e do espírito.



Visão Puritana

Paradoxalmente, a vida simples tem fortes raízes na história norte-americana, sociedade que hoje é símbolo da cultura do consumismo. A ética puritana incentivava o trabalho árduo, uma vida moderada e comunitária, e devoção constante às coisas do espírito.



Visão Quacre

Também teve influência no caráter norte-americano, especialmente no sentido de que a simplicidade material era importante ajuda para a evolução, voltada para a perfeição espiritual. Igualitários, promoviam a tolerância religiosa.



Visão Transcendentalista

Os transcendalistas adotavam uma atitude de reverência em relação à natureza e consideravam o mundo natural como a porta de acesso ao plano divino

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